Postos de combustíveis e estacionamentos estão na mira das construtoras

“O preço do capim caiu 7% e o da carne subiu 10%, então a inflação é de 3%”. A frase é uma brincadeira muito comum nas mesas de bar quando o assunto é economia, custos, reajustes. Muitos sentem como se a inflação oficial não refletisse a realidade. E um ótimo exemplo disso são os imóveis. Tanto na compra quanto no aluguel, os preços subiram muito acima da inflação. Mas qual será o impacto disso para a cidade, seus moradores e empreendedores?

Três exemplos claros em Belo Horizonte, que teve inflação de 7,22% em 2011, superando os 6,5% da média nacional, são os preços da gasolina, estacionamento e dos aluguéis. E a construção civil influenciou diretamente no preço desses produtos. Muitos terrenos que abrigavam postos de combustível e estacionamentos deram lugar a edifícios, principalmente na Zona Sul. Na Avenida Getúlio Vargas, a construtora Agmar está erguendo o Edifício Unique, onde funcionava um estacionamento. O antigo posto Ale, na esquina da Avenida do Contorno com Rua Rio Grande do Norte, próximo ao Pátio Savassi, já foi demolido para dar lugar a uma torre.

Também na Savassi, um grande estacionamento deu lugar ao Hotel Tulip Inn, que já está sendo erguido na Rua Antônio de Albuquerque, 54. Próximo dali, na Rua Inconfidentes, 883 a 911, outro estacionamento fechou para a construção do edifício comercial SBC, da construtora Soinco. As vagas de carros do terreno da Rua Cláudio Manoel, 36, também viraram canteiro de obras. Com o assédio das construtoras aos donos desses terrenos, a oferta vem diminuindo. Há menos postos de combustível e estacionamentos e, como consequência, menos concorrência. Com isso, a demanda dos que restaram subiu, e com ela, o preço.

Os reajustes dos preços estão sendo anunciados desde o início do ano. Nos estacionamentos, eles chegam a até 27,7%, com mensalidades de até R$ 400, segundo levantamento do site Mercado Mineiro. O belo-horizontino também está desembolsando mais para abastecer. A gasolina está 10% mais cara e o etanol subiu 16% em relação a janeiro de 2011. Se ampliarmos o período de comparação em cinco anos, o salto fica ainda maior: 10% para a gasolina e 37% para o álcool.

ACORDOS

Na Avenida do Contorno, 3.772, Bairro Santa Efigênia, o edifício comercial Otoni tomou o lugar de um posto, na esquina com a Rua dos Otoni. O empreendimento está sendo erguido pela Construtora Terra a Teto. “Numa conversa com o dono do terreno, percebemos que o posto já não estava sendo muito rentável. A concorrência era muito grande e a margem de lucro apertada. Então, ele preferiu fazer um acordo conosco, em que recebeu uma parte em dinheiro e terá direito a meio andar corrido e quatro vagas de estacionamento. Poderá alugar essa área e ter uma renda também. Além do posto, compramos mais duas casas vizinhas. Paguei R$ 5 mil o metro quadrado no lote do posto, que é de esquina, e R$ 4 mil no das casas. Mas o preço de terreno agora vai voltar a um preço mais aceitável. Estava tão inflacionado que as construtoras pararam de comprar e o mercado já não está mais tão aquecido”, revela Francisco Gabriel de Couto, sócio-diretor da construtora.

Reajuste fatal
Imóveis ocupados há muitos anos por comerciantes em pontos estratégicos estão sendo pedidos de volta pelos donos, que querem aumento irreal para renovação de contrato.

Wanderlei Ramalho, coordenador de pesquisas da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas Administrativas e Contábeis de Minas Gerais (Ipead), confirma que o aluguel tem um impacto direto e indireto significativo na inflação. “Esse efeito cíclico é o mesmo que ocorre quando o salário mínimo é reajustado ou a gasolina sobe demais. Reflete em tudo”, garante.

Em 2011, segundo ele, o valor da locação subiu principalmente para imóveis novos, em torno de 10%. Para contratos já existentes, a elevação foi de 4,99%. Para Ariano Cavalcanti de Paula, presidente da Câmara do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (CMI/Secovi-MG), o preço do aluguel certamente tem um peso na inflação, que é maior ou menor de acordo com a classe social do locatário. “Esse aumento nos valores do aluguel foi importante para realinhar o preço em relação ao valor do imóvel, que estava defasado. Agora, voltou a ser interessante e dá retorno ao investidor. E não falo de grandes investidores, mas da classe média, que, de repente, consegue investir na compra de um segundo imóvel”, avalia.

Mas quem sente na pele os aumentos não gosta e, muitas vezes, não suporta o impacto. Foi o caso do empresário Vicente Resende, sócio do Bar Koyote. O estabelecimento ocupava um imóvel na esquina das Ruas Pernambuco e Tomé de Souza, na Savassi, pelo qual ele pagava aluguel de R$ 4,8 mil. Ao vencer o contrato de locação, no fim de 2011, veio a surpresa. A proprietária pediu R$ 8,5 mil para renová-lo. “Não conseguimos negociar, não teve conversa. Bateram o pé nesse valor abusivo e tivemos que fechar as portas. Tivemos um prejuízo enorme, pois tínhamos feito adaptações no imóvel que nos custaram R$ 100 mil. Outros bares e restaurantes vizinhos também fecharam, como o Mulan. A esquina, que tinha uma tradição e até era o ponto de realização da feirinha da Savassi às quintas-feiras, está morta”, lamenta.

Quem também se viu em apuros foi João Antônio Pimenta, proprietário do Bar do João, na Savassi. “Pagava R$ 900 de aluguel e o dono pediu R$ 3 mil para renovar o contrato. Com muita dificuldade, consegui negociar e chegar a R$ 2 mil, mas com previsão de aumento de mais R$ 500 depois de um ano. Com esse aumento é complicado administrar. Estou abrindo mais cedo, pedindo aos garçons para forçar a venda, mas não tem como não repassar parte dos custos para o cardápio”, exemplifica ele, deixando claro como o reajuste do aluguel pode impactar nos preços e contribuir para a inflação.

Fernando Júnior tem oito empreendimentos na área de alimentação e preside a regional mineira da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes. Ele também está tendo dificuldades com o aluguel. “Tenho mais dois anos de contrato no ponto onde funciona o Koni Store, na esquina da Rua Fernandes Tourinho com Rua Levindo Lopes, e já fui procurado pela proprietária, que deseja reajustar. No local onde funciona a Pão.com, na Rua Tomé de Souza, próximo de onde era o Koyote, o proprietário também já quer reajuste de um contrato assinado recentemente. Mas creio que o mercado está voltando ao normal e os preços vão se acomodar depois dessa loucura dos últimos tempos. Afinal, é irreal querer reajustar em 100% um aluguel”, pondera.

LIMITE

Ainda segundo ele, esses custos chegam ao consumidor e geram inflação. “Os restaurantes não aumentam suas margens. Pelo contrário, até diminuem, mas o consumidor acaba pagando um pouco da conta. Claro que há um limite, pois se se aumentar demais o consumidor troca de estabelecimento. E é nesse ponto que há empresas tradicionais que se veem obrigadas a fechar as portas. Até há algum tempo, o aluguel representava 5%, 6% do faturamento. O aluguel não deve representar mais de 10% e, na Pão.com, por exemplo, chegou a 14%. Os ganhos estão empatados com os custos”, afirma. Ele acredita que alguns imóveis que foram retomados ficarão parados por muito tempo ou os donos vão acabar abaixando o valor. “Não tem cabimento um aluguel de R$ 30 mil”, reclama.

Fonte: Estado de Minas

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